9.8.06

Uma pausa de mil compassos


Paulo Roberto Pires

É grande a tentação pedir um minuto de silêncio para Moacir Santos. No
caso do compositor e arranjador brasileiro, que morreu domingo passado em
Los Angeles, onde viveu por quatro décadas, este silêncio só cabe como
aquele minuto, suspenso, em que o maestro checa se a orquestra está a
postos e, pelas mãos deste pernambucano, ataca a indefinível e incomparável
mistura de ritmos afro-brasileiros e as complexas harmonias que fizeram sua
marca única no Brasil e fora daqui.

Moacir Santos sempre esteve, sozinho, na esquina em que a Orquestra
Tabajara encontra Gil Evans, na confluência inimaginável entre a jazz band
(de vanguarda), a gafieira e a batucada. Mas como um compositor clássico
tomando um trago na Praça Tiradentes, batizou suas peças seminais como
"Coisas" - também nome de um dos discos mais importantes da música
brasileira, de 1965 - e numerou-as à maneira de um Bach.

Compôs pelo menos um standard inquestionável da música instrumental
brasileira, "Nanã" (a "Coisa número. 5"), gravado e improvisado por Deus e
todo mundo.Uma vez, por puro desfrute, tentei gravar um CD com todas as
versões que encontrei (incluindo uma, sensacional, em que Wilson Simonal
canta a letra da Mário Telles). Desisti. Daria pelo menos um caixa de CDs,
incluindo as gravações do próprio Moacir.

Começou na década de 40, mas ganhou notoriedade nos anos da bossa nova. Não
a do barquinho, tardinha, sol, sal e sul. Nadinha contra o lirismo solar,
mas seu som vinha das profundas e era um hino natural para os nossos
bravíssimos jazzmen, que nas enfumaçadas casas de Beco das Garrafas,
cunharam o "samba jazz" como rótulo possível do hard bop que faziam.

Como tantos outras desta mesma vertente - e pense aí Edson Machado, J. T.
Meirelles, Raul de Souza, Luis Carlos Vinhas, Walter Wanderley - teve mais
aceitação fora daqui. Mudou-se para os EUA, onde passou a vida ensinando
música e, no início desta década, ganhou merecidíssimas flores em vida.

Graças à dedicação comovente de Mario Adnet e Zé Nogueira, o maestro,
debilitado por um derrame, voltou ao Brasil em glória, com o lançamento do
essencial de sua obra no álbum duplo "Ouro Negro", que recriava, com a big
band que merece, os pontos mais fundamentais de sua obra.

Nas vésperas do primeiro concerto de "Ouro Negro" no Rio de Janeiro - o
último com a presença do maestro foi em maio passado - fui entrevistá-lo
para o nosso "NO.". Voltei a ser um foca, ou melhor, fui um fã ansioso
esperando-o no saguão impessoal de um hotel na orla de Copacabana. Doce,
fala mansa com leve sotaque, Moacir era de uma gentileza própria dos muito
sábios. Não foi possível relaxar durante a conversa e o motivo era nobre: é
bom ter consciência de seu tamanho diante de um gigante.

Moacir Santos deixou discografia relativamente curta e fundamental: oito
discos entre o já citado "Coisas" e "Choros & Alegria", gravado 40 anos
depois, com produção do mesmo Mário Adnet. "The maestro", o primeiro que
gravou nos EUA, em 1972, é de arrancar lágrimas e, até onde sei, não foi
relançado lá nem cá - sendo valiosíssima a piratíssima e boa cópia que me
chegou às mãos.

A morte, esta digressão final, permite, como se sabe, digressões outras de
toda espécie. E ao correr da notícia na telinha, na madrugada deste
belíssimo inverno carioca, só me lembro de William Shawn. É, o ex-editor da
New Yorker não tem nada a ver com Moacir, a não ser pela história comovente
contada por Lílian Ross, sua amante por mais de 40 anos, que por sinal está
em Parati para a Flip.

Conta ela em seu livro de memórias, "Here but not here" que Shawn,
proverbialmente durão e tido como "frio", se derretia ao ouvir Duke
Ellington. Pois quando o Duque morreu, ele ouviu por horas seguidas suas
composições e, perfilado diante do maestro morto, filho e mulher pela mão,
chorou que nem criança.

Na falta de uma passagem para Los Angeles, "The Maestro" embala este texto,
que não se quer obituário, mas uma pausa de mil compassos. Não para ver as
meninas, como cantou Paulinho da Viola, mas para fazer honra a àquele amor
que só se pode ter por um músico deste tamanho.

0 Comentários:

Postar um comentário

<< Home